O fim do reinado de Steve Jobs e a nova fase da Apple

24 de agosto de 2011

Carta de Steve Jobs

Ao conselho administrativo da Apple e à Comunidade Apple:

Eu sempre disse que se houvesse um dia em que eu não pudesse mais executar meus deveres e expectativas como CEO da Apple, eu seria o primeiro a avisá-los. Infelizmente, este dia chegou.

Venho por meio desta anunciar que estou deixando o posto de CEO da Apple. Gostaria de continuar sendo, se o conselho considerar conveniente, presidente do conselho, diretor e funcionário da Apple.

Quanto ao meu sucessor, recomendo veementemente que executemos o nosso plano de sucessão, fazendo com que Tim Cook assuma como CEO da Apple.

Acredito que os dias mais brilhantes e inovadores da Apple ainda estão por vir. E estou ansioso para assistir e contribuir para o sucesso da empresa a partir de uma nova posição.

Fiz algumas das minhas melhores amizades na Apple e agradeço a todos pelos anos em que pude trabalhar com vocês.

Steve

A Apple é uma das empresas mais inovadoras dos últimos tempos. Reinventou conceitos, criou tendências, virou referência em design e se transformou em uma concorrente difícil de ser enfrentada. Para uma empresa alcançar tal feito, no entanto, precisa ter uma liderança objetiva, ousada e criativa, e não há palavras melhores que possam resumir a mente geniosa de Steve Jobs. Mas, a partir de agora, criador e criatura não andarão mais de maneira tão próxima e, diante da cumplicidade que mantinham, o futuro se transformou em sinônimo de desafio.

Não é difícil entender o porquê, já que a história da Apple fala por si só. A empresa foi fundada por Steve Jobs e Steve Wozniak no ano de 1976, em companhia de Ronald Wayne e Mike Markkula. Na mesma época foi criado o computador Apple I e, no ano seguinte, o Apple II, lançamento que colaborou fortemente para o início da era dos computadores no ambiente doméstico.

Steve Jobs – Imagem por Wikipedia

Steve Jobs – Imagem por Wikipedia

A empresa cresceu tanto que, em 1983, John Sculley, que até então comandava a PepsiCo, foi escolhido para ser o CEO da Apple. Mas, sua relação com Steve Jobs não foi das melhores, fazendo com que este, cerca de dois anos depois, se visse obrigado a abandonar a empresa que criou.

Foi um período difícil para Steve Jobs, mas ele não se deu por derrotado. Neste meio-tempo, criou a NeXT Computer e comprou a Graphics Group, uma divisão de computação gráfica da Lucasfilm que logo se transformou na nossa querida Pixar, responsável por animações como Toy Story, Monstros S.A. e Wall-E.

Mas, o destino tratou de colocar suas engrenagens para funcionar: em 1996, ninguém menos que Apple, que não andava lá muito bem das pernas, adquiriu a NeXT Computer, de olho no sistema operacional NeXTSTEP, que algum tempo depois deu origem ao Mac OS X. Como consequência da aquisição, Steve Jobs retornou à Apple.

Jobs encontrou uma empresa sem foco e tratou de botar ordem na casa, eliminado produtos pouco promissores e colocando mentes realmente criativas para trabalhar. Agindo desta forma, assumiu oficialmente o cargo de CEO da Apple em 2000. No ano seguinte, lançou a primeira versão da linha iPod e, com o passar do tempo, o Mac OS X tomou o lugar do Mac OS 9, novos computadores da marca apareceram, o iPhone causou um alvoroço no mercado de dispositivos móveis e assim por diante.

Depois de seu retorno, nenhum produto da Apple chegou ao mercado sem contar com a sua total aprovação. Para Jobs, um produto não tem apenas que ser “bonitinho”. Tem que ser funcional. Steve Jobs não enxerga o design apenas como uma ciência para aprimorar aspectos estéticos de um produto, mas principalmente para melhorar a experiência do usuário. Nada de excesso de curvas, animações ou cores. Jobs deu espaço à simplicidade, à suavidade, que, por serem funcionais, viraram sinônimo de sofisticação em suas mãos.

Não há outra coisa que não a paixão pelo trabalho para fazer Steve Jobs continuar comandando a Apple no caminho da inovação mesmo em situações que podem tirar qualquer pessoa do eixo. Em 2004, Jobs revelou ter sido diagnosticado com um câncer no pâncreas. Diante da gravidade do caso, os médicos recomendaram ao chefão da Apple que “organizasse seus negócios”, ou seja, que se preparasse para o pior. No entanto, um exame das células revelou que a doença poderia ser eliminada com um cirurgia, sem necessidade de tratamentos mais agressivos. Coube a Tim Cook substituir Jobs na Apple enquanto este se tratava.

Problema superado, mas não por muito tempo. Em 2006, durante uma apresentação da Apple, Steve Jobs apareceu muito magro, levantando suspeitas quanto às suas condições de saúde. Mas, não forneceu detalhes e, nos meses e anos seguintes, se mostrou completamente reservado quanto ao assunto, até que, no início de 2009, anunciou que se afastaria da Apple por algum tempo, já que os seus problemas de saúde eram mais sérios do que esperava. Tim Cook novamente apareceu para substituí-lo.

Mesmo com o afastamento, Jobs escondeu detalhes, declarando – talvez para acalmar investidores – que tinha apenas problemas hormonais. No entanto, em junho de 2009, mês em que retornou à Apple, descobriu-se que Steve Jobs havia passado por um transplante de fígado cerca de dois meses antes, deixando claro que o seu problema de simples não tinha nada. De qualquer forma, esta foi uma etapa vencida.

No início de 2011, no entanto, a cena se repetiu: Steve Jobs anunciou, novamente, o seu afastamento da direção da Apple para cuidar de sua saúde, com Tim Cook assumindo o comando mais uma vez. E aí chegamos no dia 24 de agosto de 2011, quando vem à tona a informação de que Cook não devolverá o cargo.

Diante da responsabilidade de dar sequência ao trabalho de Steve Jobs, o mundo pergunta: quem é Tim Cook? De imediato, já é bom saber que Cook não é tão carismático quanto Jobs. Do tipo reservado, o pouco que se sabe a seu respeito é que começou a trabalhar na Apple em 1998 e, antes disso, ocupou cargos importantes em empresas como IBM e Compaq.

Como alguém com estas características pode substituir Steve Jobs? Talvez este seja um dos fatores que geram desconfiança neste momento, fazendo inclusive o valor das ações da Apple oscilar. Mas, o fato é que Steve Jobs não indicaria qualquer pessoa para dirigir a empresa que tanto ama. Cook não é carismático? Tudo bem, este certamente não é um requisito.

A missão de Tim Cook não será fácil. Ele terá que provar que a Apple é capaz de se manter firme e forte no mercado estando sem Jobs. Mas o começo, talvez, não seja tão difícil: Steve está se afastando definitivamente do comando da Apple, mas ainda continua ligado à empresa, pelo menos aparentemente. Portanto, dar ouvidos às especulações é bobagem. O mercado tem que esperar. Neste ponto, vale o que disse Steve Wozniak: “a qualidade dos produtos e das pessoas não muda da noite para o dia”.

Quanto a Steve Jobs, permanecemos na incerteza sobre sua saúde. Mas é bastante provável que a sua situação esteja se complicando, infelizmente. É possível deduzir isso não só por sua decisão de abandonar o cargo de CEO, mas também pelo tom de sua carta, que parece ter algo do tipo “vamos executar o plano A; se falharmos, executamos o plano B”. Este parece ser o plano B.

Eu, sinceramente, acredito que a Apple irá se sair muito bem sem Steve Jobs no comando. Esteja certo de que não é de hoje que a empresa está se preparando para isso. Além disso, Jobs não conseguiria ter feito muito progresso sem mentes talentosas por perto – e elas continuam na companhia. O próprio Tim Cook teve – e tem – grande participação no sucesso da empresa: ele esteve envolvido diretamente com a otimização dos processos de produção da companhia, por exemplo, fazendo-a reduzir gastos. O fato é que a Apple será diferente sem o seu principal fundador, o que não quer dizer que isso será negativo.

Quanto a Steve Jobs, não duvido que ele esteja sabendo lidar com a sua situação. Em um belíssimo discurso que deu a formandos da Stanford University em 2005, ele chegou a comentar inclusive sobre a morte:

“Ninguém quer morrer. Mesmo as pessoas que desejam ir para o céu não querem morrer para chegar lá. Mas mesmo assim, a morte é o destino que todos compartilhamos. Ninguém jamais escapou dela. E é assim que deveria ser, porque a morte é muito provavelmente a melhor invenção da vida. É o agente de mudança da vida. Ela tira o velho do caminho para abrir espaço para o novo”.

Ficamos na torcida por sua recuperação.

Caso queira saber mais sobre Steve Jobs e a Apple, sugiro a leitura do livro A Cabeça de Steve Jobs.

Emerson Alecrim