Software livre no Programa do Jô: o jeito errado de fazer uma entrevista

A comunidade de software livre esperou ansiosa para ver a entrevista de Sérgio Amadeu e Julio Neves sobre software livre no Programa do Jô, exibido pela Rede Globo ontem (05/10/2006). As expectativas eram grandes, afinal, duas grandes autoridades no assunto iam expor os ideais do software livre a um número muito grande de pessoas. Mas a decepção foi total…

A entrevista foi péssima. Logo de início, Jô Soares me pareceu hostil com o assunto. Suas declarações iniciais davam a entender que software livre é uma enganação, como se fosse um produto cheio de vantagens no início para ser cobrado no final. Sérgio Amadeu se enrolou para desfazer os equívocos, mas não era para menos: Jô Soares o cortava a todo momento, causando quebra de pensamento.

Julio Neves pareceu ter percebido logo no início que não receberiam o tratamento esperado, então tentou dar o máximo de explicações com frases curtas, pois sabia do risco de ser cortado ao fazer declarações mais alongadas. Sérgio Amadeu também se esforçava, embora estivesse mais nervoso. Creio, no entanto, que seu maior erro foi ter usado jargões técnicos. Jô Soares, que já parecia contrário a tratar desse assunto, ficou claramente incomodado com isso e cobrava explicações melhores, assim como um promotor faz com um criminoso que enrola em seu depoimento.

A entrevista também foi curta demais. Talvez porque o assunto pareceu desinteressante. É possível que quem assistiu discorde de mim, mas tive a impressão de que Júlio Neves e Sérgio Amadeu foram ao programa preparados para fazer outra abordagem e não conseguiram dominar a inesperada situação. Jô Soares ainda não entendeu o que é software livre e talvez não se esforce para isso, pois ou o assunto não lhe é interessante, ou ele tem uma visão negativa de tudo isso. Se é assim, não deveria ter conduzido a entrevista.

De qualquer forma, acho que o software livre, como um todo, não sai prejudicado por essa péssima entrevista. Foi simplesmente uma tentativa de divulgação que não deu certo (talvez porque alguém não quisesse que desse certo, mas enfim…). Se o público não especializado não entendeu ou não gostou do viu, simplesmente vai ignorar e não vai correr para os braços do software proprietário, afinal, ele nem sabe distinguir um do outro. Para ele, o importante é ter o software que precisa. No máximo, sua preocupação é com o custo. Se ele é livre ou não, tanto faz, o importante é ter sua necessidade atendida.

Emerson Alecrim